Odeio a Páscoa...
Tão simplesmente porque detesto o fruto que a representa, a amêndoa.
Se há coisa que realmente não consigo ingerir são frutos secos. No geral: amendoins, cajus, nozes, pistachios, pinhões, amêndoas, avelãs e afins. Confesso que não sei de onde vem esta minha aversão aos frutos secos, mas de certeza que me impingiram, quando era pequeno, com uma dose extremamente elevada deste alimento pela goela abaixo, e calculo que tenha sido pela Páscoa. E digo isto porque a amêndoa concorre seriamente para o fruto seco mais detestado pela minha pessoa, símbolo desta época. Ele é amêndoas com chocolate, amêndoas com mel, amêndoas com açúcar, amêndoas gratinadas, galinha com amêndoas (este último talvez não seja bem um alimento típico desta época… pelo menos em Portugal). E depois são saquinhos de amêndoas de oferta dos familiares, cabazes de amêndoas dos patrões dos nossos pais, caixinhas surpresa (de amêndoas) dos amigos… Para mim é a época ideal para emigrar para um país de religião Islâmica. Antes rezar 5 vezes por dia, todos os dias, que comer uma só amêndoa no dia de Páscoa! E, para além disso, esta época, sempre foi para mim, o dia da ambiguidade. Em pequeno nunca percebi porque é que um coelho trazia ovos, muitas das vezes com aquelas coisas em forma de olhos do Egas da Rua Sésamo que eu tanto detestava no seu interior. Já na altura eu sabia que os coelhos não punham ovos e muito menos com recheio de amêndoas. Sabia perfeitamente que os bebés nasciam de uma sementinha e que todos nós éramos vegetais, mas também tinha a perfeita noção de que um coelho era um mamífero que nascia do ventre da sua mãe depois do coito ter sido efectuado entre um macho e uma fêmea e como tal não havia ovos nesta equação. E o que muitos achavam esplendido encontrar dentro dos ovos, eu achava um luxo não ter de encontrar a bela da amêndoa no seu interior, que tanta alergia me causa.
Um outro fruto seco que repudio veementemente é o amendoim. Desde sempre que me lembro de não gostar deles. Também é verdade que qualquer coisa que se encontre dentro de uma casca de forma similar a um par de testículos de gato, nunca me inspirou grande confiança. Mas lembro-me de ser bem pequeno e ter iniciado a minha experiência no mundo do fruto seco com aquilo que os americanos usam para sobreviver e que eu usaria paar me suicidar: refiro-me à manteiga de amendoim. Só de escrever isto já se me dão arrepios e temo por pesadelos mais logo ao dormir. Vou-vos tentar elucidar o efeito que a manteiga de amendoim tem em mim. Imaginem que pegam no alimento que mais odeiam. Pode ser a sopa do refeitório, as favas que a vossa avó faz nos almoços de Domingo, sei lá, qualquer coisa. Agora triturem tudo. Ficamos com uma pasta cuja textura é bem mais repugnante do que aquela que tínhamos inicialmente. Se o produto original já não entrava no estreito traqueal, então agora uma papa texturada que fica a viajar na vossa boca “à là ruminação”, é já motivo para uma boa puxação de vómito. Mas ainda não acabei. Agora, para que tudo fique mais saboroso (ou não!), misturem um bocadinho de manteiga. E por fim enfrasquem. Agora têm um produto nojento em aspecto e sabor, e com uma imagem que parece um boião de fezes (sem o cheiro das mesmas, claro, a não ser que o alimento que vocês tenham escolhido tenha sido mesmo fezes, o que seria deveras preocupante no caso de vocês serem pessoas como eu, e apenas aceitável se forem escaravelhos que gostem de andar a passear a vossa bela bola de cocó).
Mas entre as amêndoas e a manteiga de amendoim há algo mais que me consegue surpreender. A minha Kriptonite. Ele é o supra sumo dos alimentos feitos de frutos secos.. O que mais pode reunir todos os condimentos conhecidos e imaginários, dignos de um belo enjoo, unidos por mel numa barra peganhenta? Exactamente…Ele dá pelo nome de Nougat (leia-se nógá em português). Desta coisa, sim, eu tenho medo…
Portanto só peço para que nesta época poupem uns tostõezinhos e não me ofereçam amêndoas assim como eu não me aproximarei de qualquer caixa das mesmas para as comprar e vos oferecer, está combinado? E sim, Ferrero Rochers também entram no meu rol de coisas detestáveis, só para que saibam. Ah, e depois há aquele tipo de pessoas que me oferece passas como que a gozar comigo, e que ficam espantadas por eu alegremente devorar um pacote inteiro. Um reparo: eu disse que não gostava de FRUTOS secos, não disse que não gostava de FRUTA seca. Uma coisa é um fruto que já nasce seco, outra coisa é um fruto que é seco depois de ter sido húmido, só para que fique registado… Mas pronto, lá vou eu contentar-me na Páscoa com as minhas amêndoas de chocolate, que apesar de serem as únicas em que confio, ainda têm o mesmo nome das minhas arqui-inimigas.